25-Jul-2016
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Publicações Científicas
 
O Robô Cirurgião*

Quase despercebida. Assim passou a notícia que em Leipzig, na Alemanha, surge a primeira sala de cirurgia totalmente robotizada do mundo. Pois lá, um doutor robô superdotado de três ágeis braços articulados é capaz de realizar delicados procedimentos cirúrgicos como pontes de safena ou remover um tumor no cérebro. O cirurgião-robô é capaz de reproduzir com maior precisão e flexibilidade a arte até então restrita ao cirurgião filho de Deus. Recentemente, médicos americanos realizaram procedimentos cirúrgicos à distância. Desde a terra firme, com o auxílio da informática, enviavam e recebiam bytes de informações até um navio da marinha, onde equipamentos realizavam com sucesso alguns pequenos procedimentos cirúrgicos.

Com um misto de surpresa, mas também preocupação, é possível realizar alguns exercícios de imaginação. Quão evoluídas estão a ciência e a tecnologia, capazes de possibilitar que um robô mimetize com precisão e destreza detalhados passos cirúrgicos, transpondo obstáculos anatômicos ou suturando pequenos vasos sangüíneos. Assim está a ciência que clona, modifica os genes ou cria equipamentos antes inimagináveis, muitas vezes ferindo o limite da ética, e que, agora, transfere parte deste dom a um robô. Seguindo a evolução das espécies vivenciamos agora a era da evolução da máquina.

Imaginemos. Um pobre paciente, já angustiado com sua patologia, está prestes a ser submetido à uma cirurgia. Bem sabe ele da importância que este procedimento representa para sua saúde. Ainda no quarto recebe carinho e afeto de seus familiares e amigos. Chega sua vez. Entra no corredor do bloco cirúrgico deitado numa maca fria e vê as luzes do teto passarem rapidamente por seus olhos, como rápidas estrelas de esperança. Coberto apenas por um lençol onde está estampada a marca do hospital começa a se sentir só e com medo. Adentra à sala de cirurgia onde o esperam algumas pessoas devidamente paramentadas que só deixam transparecer os olhos. Porém ele, o paciente, veste um ínfimo e transparente avental exageradamente curto na frente e, pior, completamente aberto atrás. Sente-se, agora, invadido em sua intimidade. É transferido para uma dura e gelada mesa cirúrgica. Neste momento ocorre o mais surpreendente, o contato com seu médico: O robô cirurgião se apresenta com uma voz metalizada: ¨Bom dia, sou o doutor X3 de última geração, equipado com processador Y, criado no laboratório Z e com pós-graduação nas oficinas da universidade... Mas pode me chamar de doutor robô... ¨. A mão fria do paciente aperta a mão gelada e espantosamente bem articulada do cirurgião cibernético. E esta é a única demonstração de um pretenso carinho ou afeto que recebe daquele ou daquilo que será dono das próximas horas de seu destino e de sua vida. Logo, um tubo desce do teto e uma gravação solicita: abra a boca, fique calmo e feche seus olhos. Do tubo sai um gás que o faz dormir.

Quando acorda, já está na sala de recuperação. Logo vai ao quarto, recupera-se bem e, em poucos dias chega o momento de sua alta. Mas, como quase todo ser humano, sente necessidade de expressar seu agradecimento pelo sucesso do tratamento. Pede que chamem seu cirurgião. A enfermeira, com um sorriso sem graça, explica que não será possível chamá-lo, pois ele não pode ser desconectado da tomada por muito tempo e que ainda não consegue se deslocar para fora da sala de cirurgia. Lembra que na verdade nem é necessário agradecer pois seu cirurgião cibernético não entenderia, afinal ele não tem sentimentos. É um médico sem alma. Trabalha bem, é eficiente, honesto, mas não sabe sorrir, chorar, sentir nem errar. É tão somente uma máquina, fria como aquela enceradeira que lustra o chão.

Que esta e tantas outras novas tecnologias, avanços e inovações que a ciência nos brinda venham para somar e aliviar nossos sentimentos. Mas que jamais esqueçamos daquilo que continua e continuará sendo o mais sagrado na nobre arte da medicina: a relação médico-paciente. Ao robô, nosso agradecimento, que seja bem vindo, a Deus, o obrigado por nos brindar com algo mais forte e divino: nossa alma.

Alberto Goldman, médico cirurgião plástico
*Artigo publicado no Jornal Zero Hora

 
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